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Violência silenciosa contra idosos: quando o abandono emocional também adoece

Posted on 3 de junho de 2026

Junho Violeta alerta para formas de violência que não deixam marcas visíveis, mas comprometem a saúde física e emocional da população idosa

O Brasil tem mais de 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a expectativa é que esse grupo represente quase um terço da população nas próximas décadas. Diante do envelhecimento da população, especialistas alertam para um problema muitas vezes invisível: a violência emocional contra idosos.
Marcada pelo abandono afetivo, isolamento social, falta de escuta, infantilização e exclusão digital, essa forma de violência pode provocar impactos significativos na saúde física e mental e, em muitos casos, pode passar despercebida até mesmo pelos familiares. A discussão ganha ainda mais relevância durante o Junho Violeta, campanha nacional e internacional de conscientização e combate à violência contra a pessoa idosa.
Embora as agressões físicas costumem receber maior atenção, especialistas reforçam que o sofrimento emocional também pode adoecer e comprometer a qualidade de vida na terceira idade.
Segundo a geriatra Verônica Reis, profissional do Hospital Madrecor, unidade da Hapvida em Uberlândia, os efeitos do abandono emocional ultrapassam o aspecto psicológico e podem desencadear alterações orgânicas importantes.
“O abandono emocional não afeta apenas o bem-estar psicológico, ele também produz repercussões físicas importantes. Quando o idoso vivencia sentimentos persistentes de solidão, rejeição ou falta de acolhimento, há aumento dos níveis de hormônios relacionados ao estresse, como o cortisol. A longo prazo, isso pode favorecer alterações da pressão arterial, piora da imunidade, distúrbios do sono, perda de apetite e até agravamento de doenças crônicas já existentes”, explica Reis.
A médica destaca que a solidão e a negligência afetiva podem se manifestar por meio de sintomas aparentemente desconectados do sofrimento emocional. Entre eles estão cansaço excessivo, alterações de sono, perda ou ganho de peso, dores generalizadas e piora no controle de doenças como diabetes e hipertensão. “Em muitos casos, o corpo manifesta aquilo que o idoso não consegue expressar verbalmente”, afirma a geriatra.
Solidão não é sinônimo de estar sozinho
O abandono emocional é uma das formas mais silenciosas e invisibilizadas de violência contra a pessoa idosa, segundo alerta a psicóloga da rede Hapvida em Divinópolis (MG), Júlia Alvarenga de Sousa. De acordo com a profissional, a ausência de acolhimento, escuta e pertencimento pode gerar intenso sofrimento psíquico.
“O abandono emocional é uma forma silenciosa, e muitas vezes invisibilizada, de violência endereçada a uma pessoa idosa, uma vez que essa atitude está atrelada à ausência de fatores importantes como escuta, presença, acolhimento e sentimento de pertencimento”, explica.
A especialista ressalta que existe uma diferença importante entre estar sozinho e sentir solidão. Enquanto a primeira condição é objetiva, a segunda está relacionada à qualidade das relações e dos vínculos afetivos. “Há idosos que vivem sozinhos e mantêm vínculos afetivos significativos, enquanto outros estão cercados de pessoas, mas sentem-se solitários. A solidão aparece quando faltam trocas, escuta e vínculos emocionais”, observa Sousa.
Isolamento pode acelerar adoecimento
As consequências do isolamento social dos idosos, segundo a geriatra Verônica Reis, podem estar associadas à piora de diversas condições de saúde e ao aceleramento do declínio cognitivo. “A interação social estimula funções cerebrais importantes, como memória, atenção e linguagem. Quando o idoso permanece isolado por longos períodos, essa estimulação diminui, favorecendo um declínio cognitivo mais acelerado”, afirma a médica.
Os impactos também afetam diretamente a autoestima, a autonomia e o desejo de viver, explica a psicóloga Júlia de Sousa. “O desejo de viver está relacionado à existência de vínculos, sentido e reconhecimento. Quando a vida se reduz apenas à sobrevivência, ocorre uma invisibilização da experiência subjetiva na terceira idade”, reforça.
Alguns fatores como o isolamento repentino, a perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações no sono e no apetite, irritabilidade, tristeza persistente e falas relacionadas à inutilidade ou desesperança podem ser considerados sinais de sofrimento emocional.
Exclusão digital e infantilização
Outro aspecto que merece atenção é a exclusão digital. Em uma sociedade cada vez mais conectada, a dificuldade de acesso ou de utilização de tecnologias pode ampliar o sentimento de isolamento dos idosos.
“Grande parte das relações, serviços e formas de comunicação acontecem atualmente no ambiente digital. Quando o idoso não consegue acessar esse espaço, é possível que ele vivencie sentimentos relacionados ao afastamento social. Nesse sentido, a inclusão digital também pode funcionar como uma forma de inclusão afetiva e social”, destaca Júlia de Sousa.
Além disso, a psicóloga alerta para a infantilização da pessoa idosa, prática comum em muitas famílias, que pode representar uma forma de violência emocional. “Tratar o idoso como uma criança, ignorar sua autonomia ou tomar decisões sem consultá-lo pode gerar sofrimento emocional. O envelhecimento não elimina a capacidade de escolha e o direito à participação nas decisões sobre a própria vida”, ressalta.
Cuidado vai além da saúde física
As especialistas concordam que, na terceira idade, preservar a saúde emocional é tão importante quanto cuidar da saúde física. Mais do que oferecer assistência material ou acompanhar consultas médicas, é fundamental garantir presença, diálogo e respeito.
“O acolhimento emocional funciona como um importante fator de proteção psíquica e emocional. Idosos que se sentem escutados, pertencentes e afetivamente reconhecidos costumam apresentar melhor adesão aos tratamentos, maior participação na vida e menor sofrimento emocional”, afirma a psicóloga da Hapvida.
Já a geriatra Verônica Reis enfatiza que pequenas atitudes fazem grande diferença no processo de envelhecimento saudável.
“Conversar, demonstrar interesse pelas histórias e opiniões do idoso, estimular sua participação em atividades sociais e respeitar sua autonomia fortalecem vínculos afetivos e ajudam a preservar a saúde mental. O cuidado vai muito além dos medicamentos; ele passa, sobretudo, pelas relações humanas.”

Érica Magalhães
Assessora de Imprensa

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