Psicopedagoga e diretora da Escola da Cidade, Esther Guimarães observa um crescente distanciamento entre pais e filhos e defende que o período de férias pode ser uma oportunidade para reconstruir vínculos e fortalecer o papel da família na educação.
Julho costuma ser lembrado pelas viagens, pelo descanso e pela pausa na rotina escolar. Mas, para especialistas em educação, o período também representa uma oportunidade valiosa para fortalecer a relação entre pais e filhos.
Segundo a psicopedagoga Esther Guimarães, fundadora e diretora da Escola da Cidade, uma das maiores preocupações de educadores atualmente é perceber que muitas famílias, pressionadas pela rotina acelerada e pelo excesso de compromissos, acabam transferindo para a escola responsabilidades que pertencem ao ambiente familiar.
“A escola tem uma missão muito importante na formação acadêmica, no desenvolvimento de competências e na convivência social. Mas valores, limites, respeito, empatia e o exemplo diário continuam sendo aprendidos principalmente dentro de casa. Quando família e escola caminham juntas, a educação acontece de forma muito mais consistente.”
Essa percepção encontra respaldo na ciência. Estudos do Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, mostram que o desenvolvimento emocional, social e cognitivo das crianças depende da qualidade das interações com os adultos de referência. As trocas de atenção, escuta e diálogo ajudam a construir habilidades que acompanharão a criança por toda a vida.
Para Esther, esse conceito confirma algo observado diariamente na escola.
“Muitos pais trabalham para oferecer o melhor aos filhos, mas, sem perceber, acabam tendo pouco tempo para conhecê-los de verdade. Sabem quais presentes eles desejam, mas nem sempre conhecem seus medos, suas inseguranças ou o que estão vivendo emocionalmente.”
Na rotina escolar, esse distanciamento aparece quando crianças e adolescentes chegam à escola trazendo demandas emocionais que vão além do processo de aprendizagem.
“A escola acolhe, orienta e contribui para o desenvolvimento integral dos alunos, mas não substitui a presença da família. O olhar atento dos pais, as conversas e os valores vividos dentro de casa são insubstituíveis.”
Para a educadora, as férias representam uma oportunidade simples e valiosa para reconstruir essa proximidade — e isso não exige grandes viagens ou investimentos.
“Os momentos mais significativos quase nunca são os mais caros. Preparar uma refeição juntos, brincar, caminhar, assistir a um filme ou simplesmente conversar já faz uma enorme diferença. As crianças precisam muito mais de presença do que de programação.”
Ela ressalta que é justamente na convivência cotidiana que os filhos desenvolvem autoestima, aprendem a lidar com frustrações e encontram segurança para enfrentar os desafios da vida.
Mais do que uma pausa no calendário escolar, Esther acredita que as férias são um convite para desacelerar. Em um tempo marcado pela pressa e pelas telas, ela defende que o maior presente que pais e mães podem oferecer aos filhos continua sendo a própria presença.
“A escola pode ensinar matemática, ciências e idiomas. Mas segurança emocional, caráter, respeito, empatia e amor continuam sendo construídos, principalmente, dentro de casa.”
Ela reforça que família e escola não disputam espaço: são parceiras com responsabilidades diferentes e igualmente essenciais.
“Quando a família participa da educação e a escola cumpre seu papel pedagógico, a criança cresce sabendo que existe uma rede de adultos caminhando na mesma direção.”
Ao final, Esther deixa um convite às famílias.
“Não se preocupem em criar férias perfeitas. Criem momentos verdadeiros. Desliguem o celular por alguns minutos, conversem olhando nos olhos e escutem seus filhos sem pressa. A infância passa muito rápido. O que permanece na memória deles dificilmente será o brinquedo que ganharam ou o passeio mais caro que fizeram. O que fica é a lembrança de terem sido amados, ouvidos e acolhidos.”
Cinco formas de aproveitar as férias para fortalecer os vínculos familiares
- Reserve um tempo exclusivo todos os dias
Mesmo que sejam apenas 30 minutos, esteja totalmente presente, sem celular. - Converse além da rotina
Pergunte como seu filho está se sentindo, quais são seus medos, alegrias e sonhos. - Valorize os momentos simples
Cozinhar, caminhar, brincar ou assistir a um filme juntos cria memórias afetivas duradouras. - Observe mais
As férias são uma oportunidade para perceber interesses, talentos e dificuldades que passam despercebidos na correria do dia a dia. - Eduque pelo exemplo
Respeito, empatia, responsabilidade e diálogo são valores aprendidos principalmente na convivência familiar.
