Hoje sou como livro de história, estão grafadas na memória todas as minhas saudades, como páginas que nostalgiam o que já me foi felicidade. Então carrego comigo lembranças de tempos que não voltam mais. Sempre tenho algo pra contar, posso me lembrar de quando corria pela ruas de terras batidas da minha saudade, ouvindo quadro de congados e ia seguindo sem ter onde chegar, ouvindo o batido do tambor, como se fosse coração. Nos finais de novembro para dezembro, no tempo de primavera, quando a chuva molhava o chão, saia catando pitangas e gabirobas no cerrado, sem temer os bichos peçonhentos, que com certeza nos viam, mas sabiam eles que estávamos protegidos por Deus. Sinto falta da vontade de crescer, de olhar nas frestas das portas, em cada oportunidade, na esperança de encontrar o futuro. Carrego comigo a inocência do perdão e a exceção, quando não tinha ambição. Apesar da vida humilde, nunca ter ambicionado o que era dos outros, eu tinha tudo que bastava. O que me frustrou e eu queria ter tido mais, foi tão somente alguns olhinhos bonitos que me espiaram apaixonados na adolescência. Guardei no meu embornal da vida muitas coisas bonitas pra contar, está tudo rabiscado no meu passado e de repente me assola, como se quisesse voltar, foi quando colhia manga do pé, brincava em balanços de corda de bacalhau, nada que se fazia era pra o mal, sempre tinha um riso solto pra fazer alegria. Lembro-me com clareza quando os palhaços dos circos que frequentei eram ainda engraçados, por mais inocentes que fossem as piadas. Quando gritavam era porque não usavam microfone, queriam ser ouvidos e ouvirem as gargalhadas que ecoavam. Que saudade dos tocadores de violas, que cantavam capela e repicavam seus instrumentos sem eletricidade, quando suas músicas sempre cantavam histórias. Ah, que vontade de ser filho outra vez, começar a crescer, sem mudar nada do que foi antes, sem tirar de mim as pessoas que amei, os bumbos que toquei, a pessoa que beijei ou não, mas que me catou o coração. Quanto vontade de poder ser feliz, distinguir a noite do dia, poder vestir a roupa domingueira, calçar o sapato de festa, comer macarronada aos domingos, quando tinha guaraná. Que bom seria rever meus avós, olhar nos olhos deles como era antes, buscando proteção pra não apanhar, porque vó é vó, era quem eu recorria na hora da surra que não machucava ninguém, nem eu também. Até dos dedos esfolados, os espinhos inflamados, as pisadas em pregos, que se cravavam em pés descalços, eu sinto falta. Imagino a farra com a molecada, do encontro da primaiada que nos juntávamos para festar. Hoje sei o quanto fui rico na vida, um verdadeiro milionário e como fui feliz! Hoje ainda me puno por ter sido tão apavorado e pedi tanto a Deus para crescer depressa! Agora aqui estou, não carrego flor na lapela, nem faço serenata, não corro pra um colo, é muito mais fácil ter um dolo. Hoje, não tenho tanta certeza, mas de repente sou muito menos feliz, como eu imaginei e quis. Mas não tem nada não, hoje clamo ao todo poderoso, que nunca me deixa esquecer, pra me favorecer, me deixar escrever, o que tenho pra contar, relatar que tenho um amor, mas não vou revelar.
Texto: José Airton de Oliveira