Hábitos alimentares que resultem na ingestão de gordura saturada e uma rotina sem a prática regular de exercícios físicos trazem para junto das pessoas uma ameaça discreta, silenciosa, que só dá sinal da presença quando já causou danos irreversíveis. Em tempos de estresse diário, quando a falta de tempo impõe, pela praticidade, o consumo regular de alimentos gordurosos e, pela falta de informação, o sacrifício da pratica de atividades físicas, as consequências da companhia cotidiana do colesterol rende sustos desagradáveis. Não raro, histórias com esse enredo terminam em morte.
É comum o arrependimento nos testemunhos de quem experimentou o resultado de anos de consumo da gordura ruim, a saturada, ou, como dizem os médicos, o colesterol LDL, associado à omissão do cuidado com o próprio corpo, o sedentarismo. A vida sob os efeitos da arteriosclerose, que é a doença degenerativa das artérias, com o endurecimento da parede dos dutos por onde o sangue viaja no corpo, implica lidar cotidianamente com o risco de infartos; de anginas; de acidentes vasculares cerebrais, os AVC; e de complicações circulatórias em geral. Via de regra, quem experimenta essa realidade tem vontade de voltar no tempo e se pergunta o porquê de não ter se cuidado antes.
Todos os anos, o dia 8 de agosto serve para marcar, no Brasil, a luta contra a principal causa das doenças cardiovasculares, as DCV, que, segundo o Ministério da Saúde, são o motivo mais frequente para a mortalidade no País. Longe de ser uma ocasião de celebração, o Dia Nacional de Combate ao Colesterol é data que busca conscientizar a população sobre a importância dos exames preventivos e a adoção de hábitos saudáveis para a diminuição da ocorrência dos problemas circulatórios. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), as DCV representaram, em 2015, razão para mais de 30% dos óbitos no mundo e, nos países em desenvolvimento, essas enfermidades têm relação com mais de três quartos das causas de morte.
Para um grupo específico de pessoas, a atenção com o colesterol deve ser ainda maior, precisa mesmo virar preocupação. Pesquisas recentes, de dois anos para cá, mostram que a suscetibilidade aos danos da gordura ruim é maior para quem tem histórico familiar de problemas. Esses trabalhos mostraram que a genética, ou seja, a hereditariedade, contribui em aproximadamente 70% para a ocorrência dos danos causados pelo LDL, enquanto a má alimentação e o estilo de vida têm a ver com os restantes 30%. “O pior é que essa doença não causa dor, a pessoa não sente e, por isso, não procura tratamento”, explica o endocrinologista do Complexo Hospitalar Santa Genoveva, Joel R. Heitor Filho.
A constatação da suscetibilidade aos efeitos do colesterol ruim depende, fundamentalmente, da prevenção, do cuidado do indivíduo consigo mesmo. Vale, portanto, adotar o hábito de exames de sangue anuais e também recorrer periodicamente a um médico para a identificação de sinais nem sempre evidentes, mas de constatação possível em procedimentos clínicos que requerem equipamentos simples, graças ao que os profissionais do ramo chamam de atenção básica à saúde. “Assim dá para mudar a realidade atual, que é a do paciente que só busca o médico quando já sofre com o problema, quando é tarde demais para evitar a ocorrência da doença”, orienta o Doutor Joel.
O LDL, ou gordura ruim, é companheiro cotidiano do brasileiro, está presente como ingrediente em grande parte dos pratos da culinária tupiniquim e mineira, inclusive no inocente pão de queijo. Esse tipo de colesterol é comum nos alimentos derivados de origem animal, os miúdos e embutidos em geral; está nos queijos amarelos, no leite e nos laticínios integrais; também marca presença nas frituras, nas quitandas e nos salgados. Isso sem falar nas fast foods, que, com a força da publicidade, fisgam o glutão desde pequenino. Atire a primeira pedra quem consegue adotar, pelo menos durante uma semana, dieta com a privação de, ao menos, uma dessas comidas.
“E assim as pessoas estão cada vez mais obesas, com o colesterol alto, sujeitas à uma maior ocorrência de câncer”, comenta o médico endocrinologista da equipe do Santa Genoveva. O Doutor Joel incentiva que as pessoas adotem alimentação equilibrada, com o consumo regular das carnes de frango e de peixe, de verduras, de leguminosas, e de alimentos que contenham as gorduras insaturadas, ou colesterol bom, o HDL, que é protetor do coração e das artérias e está presente especialmente no azeite e nas castanhas. E também recomenda a prática regular de exercícios físicos, com duração mínima semanal de 150 minutos, em ao menos três ocasiões.
Queijo, cerveja, estresse e sedentarismo
O discurso do médico foi pouco para poupar o coordenador de materiais Sival Dias Cunha, de 59 anos, de uma experiência que, por muito pouco, não virou tragédia. O pai de um casal de filhos adultos e há décadas funcionário de uma multinacional com fábrica em Uberlândia esteve, no último dia 9 de julho, com a vida em risco. Em casa, no final da madrugada de uma terça-feira, dois dias depois do seu aniversário, se incomodou com uma forte pressão no alto das costas e dor no peito que irradiava para o braço. Recorreu a alongamentos para tentar alívio para o mal-estar e, logo em seguida, teve que lidar com vômitos. Assim mesmo, decidiu ir para o trabalho.
“Como ainda não me sentia bem, dentro do carro, no meio do caminho, resolvi ir para o hospital”, conta Cunha. Ainda no trânsito, ficou hesitante sobre o destino, mas terminou – providencialmente – no pronto-socorro do Complexo Hospitalar Santa Genoveva. Logo depois de se apresentar aos médicos e enfermeiros, soube de alterações incomuns no resultado do eletrocardiograma. Isso justificou a indicação de um atendimento emergencial, com a adoção imediata para o paciente de um raio x de tórax e de cateterismo. O quadro era da ocorrência de um ataque cardíaco devido ao entupimento da artéria principal do coração por coágulos, em razão do estreitamento do seu calibre pelas placas de colesterol.
A terça-feira foi o início do período de cinco dias na unidade de terapia intensiva (UTI), seguido de um dia de internação num quarto. E a data significa também o começo da nova vida de Cunha. Sabiamente e não por coincidência, o domingo anterior às intensas dores no peito, dia de aniversário, marcou o abandono de um companheiro de 40 anos, o cigarro. Com o ataque cardíaco, também ficou para trás o consumo diário de queijo amarelo, carnes gordurosas e cerveja. “Deus me deu uma segunda chance e tanto.” A consciência do risco provocou a mudança de atitude que, finalmente, fez o paciente do Doutor Joel dar ouvidos a tantos alertas, avisos e pedidos de mudança de hábitos.
Sival Dias Cunha tem altura de 1,67 metro e pesa 84 quilos, ou seja, apresenta sobrepeso. Assume, sem vergonha nenhuma, o seu sedentarismo. E também reconhece facilmente que a vida toda adotou hábitos alimentares pouco recomendáveis, sem restrições inclusive ao torresmo. É sabedor que traz dentro de si risco hereditário porque seus exames de sangue insistentemente indicam taxas altas para o colesterol LDL. Mais: esse mesmo problema se repete com um dos seus irmãos, sendo que outro deles, o mais velho dos três, foi vítima de infarto aos 45 anos. Antes de retornar ao trabalho, ainda afastado da rotina do escritório, tratou de recomendar um check up geral para seus familiares.
Como saldo da experiência em que esteve com a vida seriamente em risco, ficou o aprendizado. “Passei a viver uma vida de consciência, agora sigo as recomendações médicas à risca, seriamente.” A lembrança dos dias que viveu na UTI vem carregada de arrependimento e de disposição para a mudança de vida, para aproveitar aquela que chama de segunda chance divina. “Repito uma frase há anos, mas decidi que isto passou a valer para mim mesmo: é melhor aprender com o acerto dos outros do que com os próprios erros”, filosofa Cunha. “Eu deveria ter cuidado mais de mim, ter mais responsabilidade comigo mesmo, seguido as recomendações dos médicos”, lamenta, ciente de que, de agora em diante, o dia a dia será de sujeição a restrições.
O que todo mundo precisa saber sobre o colesterol
Fonte: site da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
* Colesterol é necessário ao organismo – O colesterol é um tipo de gordura que faz parte da estrutura das células do cérebro, nervos, músculos, pele, fígado, intestinos e coração. Ele é essencial para o funcionamento destas células. É importante para a formação de hormônios de vitamina D e até ácidos biliares, que ajudam na digestão das gorduras da alimentação;
* O excesso de colesterol ruim é que causa infarto e AVC (Acidente Vascular Cerebral) – O colesterol no sangue circula ligado a lipoproteínas chamadas de colesterol bom (HDL) e colesterol ruim (LDL). O excesso de LDL é que está associado às doenças cardíacas. O excesso de colesterol bom (HDL), por outro lado, até protege das doenças cardíacas. Por isso, quando medimos o colesterol total no sangue, precisamos sempre saber o quanto se deve ao colesterol bom e o quanto se deve ao ruim. Só o ruim precisa ser tratado;
* O excesso de colesterol ocorre por fatores genéticos e alimentares – Cerca de 70% do colesterol no sangue vem do fígado e apenas 30% vêm da alimentação. Depois de passar pela circulação sanguínea, o colesterol precisa ser removido novamente pelo fígado para formar bile. Os níveis de colesterol no sangue dependem, portanto, principalmente da capacidade do fígado em removê-lo. Isso varia de pessoa para pessoa;
* Pessoas magras podem ter colesterol alto – É importante saber que ter excesso de peso não significa ter colesterol alto. Pessoas magras também têm colesterol alto. Isso porque os níveis de colesterol no sangue dependem muito mais da taxa de remoção do colesterol pelo fígado, que é genética. Se você tem um parente de primeiro grau com colesterol alto, sua chance de ter colesterol alto é maior;
* O colesterol ruim forma placa de ateroma – O excesso de LDL (colesterol ruim) causa doenças vasculares porque se deposita, sem dar sintomas, na parede interna das artérias e gradualmente vai formando uma placa chamada ateroma. Estes ateromas vão obstruindo gradualmente as artérias e podem acabar causando Infarto agudo do miocárdio e AVC;
* Importante controlar os outros fatores de risco – Leva muitos anos para uma placa de ateroma se desenvolver e, com isso, provocar infarto ou AVC. Quanto mais avançada a idade, maior o risco. É muito importante então, manter também os outros fatores de risco tradicionais bem controlados. Além dos níveis de LDL, é preciso controlar a glicose, a pressão, parar de fumar e reduzir o peso, quando excessivo;
* É importante o estilo de vida saudável – O estilo de vida é muito importante na redução do risco de infarto e AVC. Evitar o sedentarismo, evitar comer alimentos com gordura saturada e evitar fumar são medidas importantes a serem seguidas. Os alimentos que mais aumentam o colesterol são a gema dos ovos, o bacon, a pele da carne das aves, a manteiga, o creme de leite, a nata, as frituras, as salsichas, e embutidos e a carnes;
* Todos acima de 10 anos devem dosar o colesterol – Todos os adultos e crianças acima de 10 anos devem dosar o colesterol e suas frações pelo menos uma vez. Se elevados, deve-se consultar um endocrinologista para definir o risco cardiovascular individual e planejar um tratamento adequado;
* O tratamento é preventivo e permanente – O tratamento do colesterol deve ser preventivo e para a vida toda. O objetivo é reduzir o risco cardiovascular. Não adianta tratar por um período e depois abandonar o tratamento, pensando em cura. Na verdade não se busca uma cura e sim um controle que pode ser feito por medidas de estilo de vida ou medicamentos;
* O tratamento reduz mortalidade – As estatinas são as medicações mais importantes no controle do colesterol. O tratamento adequado reduz a mortalidade. A cada 40mg/dL de colesterol LDL reduzido, a mortalidade por infarto se reduz em 20%. Portanto, quanto mais alto o colesterol, mais importante é o tratamento.
Fonte: Prelo Comunicação