Serei sempre um caminho, logicamente com espinhos, mas somente quando não conseguirem me interpretar. Sou um texto cheio, repleto de transitividade, porque necessito de complementos. Logicamente me entendo passível de exploração, vacilo diante das necessidades, entrego-me, sacrificando as minhas próprias para atender as dos outros. Ainda clamo, reclamo, não aprendi negar, faço e me sinto completo, repleto de dúvidas, mesmo quando as perdas são representativas, aprendi a perdoar. Diante dessas peculiaridades descobri que não nasci para mim, mas por e para os outros e são vários esses motivos. Sei que sou assim, já faz muito tempo, antes, dantes, desde quando nasci. Tenho o entendimento que tudo isso que faço não representa muito, nem tem tanto valor para os beneficiados, mas são lições aprendidas. Não tenho esperado o agradecimento, nenhum reconhecimento, faço porque quero, então assumo minha satisfação. Eu já tive olhos que me viram, depois negaram, ignoraram, não mais me olharam, outros que me vêm, mas não assumem a vontade de me possuírem. Sou como digo, digno, dígrafos em folhas invisíveis escritos a lápis, posso ser apagado quando não agradar, também passável de correções. Hoje um pouco frágil para determinadas situações, condições e convicções, a vida cobra o tempo emprestado, vejo-me escrito em papel de arroz, correndo o risco de me desfazer diante de pequenos acontecimentos. Sou de contar histórias, muitas que guardo dos meus antepassados, os presentes e ausentes, que foram para outro tempo da vida. Lembro-me, do tempo que ainda era muito menino, me encontrava sentado em roda de contação, de repente bebendo limonada de limão cravo, comendo mentiras feitas com farinha e ovo, iguarias simples, fritas em óleo quente, foi quando fui feliz. Hoje nas minhas inconstâncias, curto reggae, uma boa música de viola, aquela do caboclo, quase fora de moda, dessas que contam histórias, tristes, felizes. Ainda tenho os meus deslizes, gosto de muito da literatura rabiscada de Raul Seixas, profetizando a história da existência da vida, no apontamento dos deslizes humanos. Há um tempo deixei de viajar, decidi parar, despois de conhecer exatamente meu lugar. Preciso contar, não deixei de sonhar, porém acordado, já deixei de dormir, não posso me distrair, porque hoje luto por alcançar minha hegemonia, alcançar um nível além do que é permissível para o ser humano, não ser santo, nenhum Deus, mas respeito enquanto um eu.
TEXTO: José Airton de Oliveira