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Por que as universidades estudam gênero?

Posted on 7 de março de 2019
Aproveite o Dia Internacional da Mulher para conhecer pesquisas da UFU

O século XX foi marcado por feminismos que, com variações geográficas, étnicas e sociais, reivindicaram direitos fundamentais às mulheres. Parte foi conquistada, parte ainda é luta no século XXI. Nas universidades ocidentais, principalmente a partir dos anos 1960, o tema ganhou status científico: estudos de gênero.

Na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), os estudos de gêneros são uma ciência que marcou presença nos anos 1990 e cresceu na última década. A produção científica sobre gênero mais antiga registrada no Repositório Institucional da UFU é de 1992: o trabalho de conclusão de curso (TCC)

De 1990 a 1999 foram 37 trabalhos – entre TCCs, dissertações e teses – com as palavras “gênero” e “sexo” registrados no repositório da UFU. O número saltou para 576 na década de 2000 a 2009. Na década atual, até o fechamento desta reportagem, 2103 trabalhos sobre gênero e sexo foram publicados no repositório (

A plataforma foi criada em 2016 e tem trabalhos registrados desde 1987 (embora a digitalização dos materiais impressos ainda não esteja concluída). Acompanhando a expansão da UFU, houve crescimento na quantidade de trabalhos de todas as áreas. Mas, enquanto as submissões em geral aumentaram sete vezes nos anos 2000 em relação aos anos 1990, os trabalhos sobre gênero cresceram 15 vezes no mesmo período comparado com a década anterior. Na década mais recente, tanto as submissões gerais quanto as de gênero triplicaram em relação à anterior.

Também em 1992 foi criado o

 

O que é gênero?

Fizemos esta pergunta para a autora do primeiro trabalho sobre gênero registrado no repositório da UFU. Segundo Cláudia Guerra, gênero é “construção social, cultural e histórica sobre funções masculinas e femininas, lugares a ocupar, tipos de performance, representações sociais”.

A historiadora, que hoje é professora universitária, integrante do Neguem e membro-fundadora da ONG

A definição de gênero como construção social também é apontada por outras pesquisadoras da UFU. A professora Raquel Discini, vinculada à Faculdade de Educação da UFU, afirma que “objetivamente, gênero diz respeito às construções sociais relacionadas ao sexo dos indivíduos. Por que naturalizamos determinadas percepções em relação aos sexos? Exemplo: ‘homem não chora’; ‘mulher é vaidosa’ etc.”

 


Foto: Marco Cavalcanti

 

A professora Fernanda Cássia dos Santos, que ministra a disciplina de História na Escola Educação Básica (Eseba/UFU) e estudou gênero em seu mestrado e doutorado na Universidade Federal do Paraná, lembra como diferentes sociedades construíram suas próprias noções sobre o que significa “ser homem” ou “ser mulher” e sobre o que é considerado “feminino” ou “masculino”.

“Na nossa sociedade as desigualdades entre homens e mulheres têm sido explicadas através de argumentos que se apoiam nas diferenças biológicas entre os corpos. Assim as desigualdades são naturalizadas, adquirindo um forte impacto político”, diz Santos.

As desigualdades de gênero foram questionadas ao longo do século XX no âmbito do ativismo e nos debates acadêmicos. “Essas reflexões abrangem questões relacionadas às relações de trabalho, à sexualidade, atravessando aquilo que é considerado íntimo e privado e suas relações com a esfera pública”, afirma a professora da Eseba.

Especialmente a partir das décadas de 1960 e 1970, cresceram os questionamentos sobre as intersecções entre as desigualdades de gênero e as de raça, classe, etnia, sexualidade e geração. “A compreensão de que essas relações de poder foram socialmente construídas nos leva a concluir que elas podem ser modificadas e que, portanto, é possível estruturar nossa vida em sociedade de uma forma completamente diferente”, afirma Santos.

 

Ideologia de gênero existe?

A busca pela expressão “ideologia de gênero” era quase nula no Brasil até maio de 2015, segundo o

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O que os estudos de gênero têm a dizer sobre essa expressão com tanto peso político? “Infelizmente, o equivocado termo ‘ideologia de gênero’ é utilizado por aqueles que atualmente combatem toda e qualquer discussão a respeito do assunto. Falar sobre violência contra a mulher é discutir gênero, ensinar o respeito às diferenças é discutir gênero. Os que criaram a expressão ‘ideologia de gênero’ entendem que discutir o assunto é ‘doutrinar’ crianças. Uma escuridão”, afirma Raquel Discini.

A professora de educação básica Fernanda Cássia dos Santos garante que não existe esse tipo de doutrinação. “Trabalho como professora da educação básica há mais de dez anos e posso garantir que nunca existiu um ‘kit gay’, que professores não são capazes de manipular o pensamento de seus alunos (mesmo os mais jovens) e que não estamos interessados em ‘confundir a cabeça das crianças para que elas mudem de sexo’. Essas afirmações são completamente absurdas e servem apenas para difundir pânico entre as famílias.”

Os estudos de gênero “promovem famílias na sua diversidade, com direito de ensinar e aprender, em clima democrático para educação plural e crítica”, explica Cláudia Guerra. O problema, segundo a pesquisadora, é que esses estudos têm sido distorcidos, com fins políticos, e isso faz retroceder os avanços relevantes à autonomia de mulheres.

“A verdade é que só existe uma ‘ideologia de gênero’ em vigor na nossa sociedade: a que defende que as mulheres devem ser submissas aos homens, que esse é o seu papel natural e que por isso devem buscar sua realização pessoal em primeiro lugar na maternidade e no casamento”, afirma Santos. Segundo a professora, essa ideologia já foi defendida, ressignificada e reestruturada em diferentes períodos históricos e, no contexto atual, surge como uma reação a uma educação emancipadora da sociedade.

 

Por que estudar gênero?

Se as relações humanas não são naturais, e sim sociais, elas são passíveis de transformação. É para perceber isso que se deve estudar e compreender que o mundo em que se vive foi construído historicamente há muito tempo. É por isso que se deve estudar gênero, segundo a historiadora Raquel Discini. Ela recomenda aos interessados no tema a leitura das francesas Simone de Beauvoir e Michelle Perrot, “para começar em grande estilo”, mas lembra que também tem muitos trabalhos bons no Brasil.

A pesquisa sobre gênero, como explica Cláudia Guerra, possibilita diagnósticos sobre a desigualdade e o entendimento das fabricações históricas de gênero em meio às relações de poder, o que pode contribuir para as “desnaturalizações” de papéis e favorecer a igualdade e a equidade de gênero.

Além dos livros, a reflexão também está nas telas, e Guerra indica alguns filmes e séries que abordam a questão de gênero, como Thelma e Louise, A Garota Dinamarquesa, Histórias Cruzadas, O Renascimento do Parto, O Conto da Aia, The Mask You Live In, Shirley Valentine, Tomates Verdes Fritos e Preciosa – Uma História de Esperança.

 

Thelma & Louise (Divulgação)

 

Mais do que pesquisar gênero nas universidades, Fernanda Santos defende que é urgente falar sobre gênero. Na Eseba, onde ela atua como professora, a proposta curricular da área de História trata das relações de gênero como um dos temas a serem trabalhados com os estudantes do quarto ciclo, cuja idade é de 13 a 14 anos. 

“Isso quer dizer que durante um semestre inteiro as turmas do oitavo ano do ensino fundamental estudam História a partir de um olhar para essas questões”, explica Santos. “Esse enfoque leva o ensino da disciplina ao encontro de um processo de tomada de consciência, capaz de aproximar os estudantes de reflexões profundas sobre as desigualdades existentes em nossa sociedade e as formas que podem ser utilizadas para enfrentá-las.”

Foto: Marco Cavalcanti

Fonte: Comunica UFU

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