Enfermeira obstetra do Hospital Madrecor, da Hapvida, orienta sobre planejamento, ordenha, armazenamento e rotina para que mães mantenham o aleitamento após o fim da licença-maternidade

O retorno ao trabalho após a licença-maternidade ainda representa um dos principais desafios para a continuidade da amamentação no Brasil. Dados do Ministério da Saúde mostram que mulheres que trabalham fora de casa enfrentam mais dificuldades para manter o aleitamento materno, especialmente nos primeiros meses de vida do bebê. Com orientação adequada, porém, é possível organizar a rotina, armazenar o leite humano de forma segura e continuar oferecendo todos os benefícios da amamentação mesmo após a volta às atividades profissionais.
Para a enfermeira obstetra do Hospital Madrecor, da Hapvida em Uberlândia-MG, Miriam de Souza Santos Silva, o fim da licença-maternidade e o retorno ao trabalho não precisam representar o fim da amamentação. “O retorno ao trabalho pode ser emocionalmente desafiador e a rotina pode interferir na amamentação, principalmente se a mãe passa muitas horas sem amamentar ou ordenhar. O mais importante é manter o estímulo das mamas e buscar apoio.”
A orientação, segundo Miriam de Souza é que a mulher comece a se preparar cerca de 15 dias antes de voltar às atividades profissionais, com início da extração e do armazenamento do leite para que o bebê receba o alimento mesmo durante a ausência da mãe. “A recomendação é do Ministério da Saúde e integra as orientações para manutenção do aleitamento materno após o retorno ao trabalho”, afirma.
A orientação ganha ainda mais relevância durante o “Agosto Dourado”, mês dedicado à conscientização sobre a importância do aleitamento materno. Segundo Miriam de Souza, o planejamento é um dos principais aliados da mãe nesse período. “Não é necessário fazer um estoque enorme. O mais importante é aprender a ordenhar, armazenar corretamente e estabelecer uma rotina que seja confortável”, orienta. Segundo ela, a puérpera deve tirar todas as suas dúvidas com sua ginecologista e enfermeira obstetra para ficar tranquila nessa fase da vida. O conhecimento e o apoio são fundamentais para o sucesso na amamentação.
Ordenha deve fazer parte da nova rotina
Segundo a enfermeira do Hospital Madrecor, durante o período em que estiver no trabalho, a mulher pode realizar a ordenha para manter o estímulo das mamas e preservar a produção de leite. Existem bombas de tirar leite manual e elétrica, mas Miriam de Souza apresenta a ordenha manual como a mais fácil e acessível.
Miriam de Souza salienta o quanto é importante a mãe ser orientada já no ambiente hospitalar. “Aqui no Madrecor, a mãe possui todo o apoio da equipe. Logo após o parto, as enfermeiras auxiliam a mãe a colocar o recém-nascido no seio, e durante a internação no alojamento conjunto. Ademais, o setor de lactário ajuda a mãezinha a fazer na prática a ordenha, tanto manual como na bomba elétrica, além de tirar todas as suas dúvidas”, conta a enfermeira.

Sobre a quantidade de extrações do leite, a enfermeira defende que não existe uma quantidade que funcione da mesma forma para todas as mães. A frequência deve considerar o tempo de afastamento do bebê e as necessidades individuais. “A produção de leite depende do estímulo. Quanto mais a mama é esvaziada pelo recém-nascido ou pela ordenha, maior tende a ser o estímulo para a produção”, explica.
A mãe pode organizar momentos de ordenha ao longo da jornada de trabalho, de acordo com sua rotina e com as condições oferecidas pelo empregador.
O Ministério da Saúde recomenda que a mulher se informe previamente sobre as condições disponíveis no ambiente de trabalho para a retirada e o armazenamento do leite. As chamadas salas de apoio à amamentação são uma das estratégias para oferecer um espaço confortável, reservado e adequado para a ordenha e a conservação do leite.
Armazenamento exige cuidados
Em casa, o leite humano cru pode ser armazenado por até 12 horas na geladeira e até 15 dias no freezer ou congelador. O recipiente deve ser identificado com a data e o horário da coleta e mantido na parte mais fria da geladeira, evitando a porta.
Para Miriam de Souza, a escolha e a higienização do recipiente também são importantes. “O frasco de vidro de boca larga, com tampa plástica que feche bem, devidamente higienizado, é uma das opções recomendadas”. A profissional orienta que o frasco e a tampa sejam fervidos por 15 minutos e deixados para secar naturalmente, com a abertura voltada para baixo, sobre uma superfície limpa e seca.
No ambiente de trabalho, o leite retirado deve ser mantido refrigerado. Ao final do expediente, pode ser colocado em uma sacola ou caixa térmica com gelo e levado para casa. Ao chegar, deve ser armazenado imediatamente na geladeira ou no freezer, conforme o planejamento de uso.
Nada de micro-ondas ou leite fervido
Outra atenção importante está no momento de oferecer o leite ao bebê. O leite congelado deve ser descongelado previamente na geladeira, e aquecido em banho-maria, sem contato direto com o fogo. O micro-ondas não deve ser utilizado, pois o aquecimento desigual pode provocar pontos muito quentes e comprometer componentes importantes do leite. “Depois, deve-se movimentar suavemente o recipiente para misturar a gordura que se separou”, orienta a enfermeira.
Também é recomendado evitar mamadeiras e chupetas, que podem interferir na amamentação. Quando o leite ordenhado é oferecido ao bebê, uma alternativa é utilizar copinho, existem modelos próprios em farmácias e drogarias.
Mãe também precisa de apoio
Além dos cuidados técnicos, o retorno ao trabalho envolve uma mudança emocional e de rotina. A ansiedade e o estresse podem dificultar a saída do leite da mama em alguns momentos, mas isso não significa que a mulher tenha perdido a capacidade de amamentar.
“O retorno ao trabalho pode ser emocionalmente desafiador e a rotina pode interferir na amamentação, principalmente se a mãe passa muitas horas sem amamentar ou ordenhar. O mais importante é manter o estímulo das mamas e buscar apoio”, reforça Miriam de Souza.
Para a profissional, acolhimento e informação são fundamentais para evitar que a amamentação se transforme em mais uma fonte de cobrança para a mulher. “Cada mãe e cada bebê têm uma realidade diferente. Não precisamos transformar a amamentação em uma cobrança ou em uma prova de desempenho. Precisamos oferecer acolhimento, informação segura e condições para que essa mulher faça o melhor possível dentro da sua realidade”, destaca a enfermeira obstreta.
Empresa também faz parte dessa rede
A continuidade do aleitamento após o retorno ao trabalho não depende apenas da mãe. O ambiente profissional também pode ser um aliado para oferecer condições para que ela consiga realizar a ordenha com privacidade, conforto e segurança. “Primeiro, respeitando o momento da ordenha como uma necessidade de saúde, e não como um privilégio. A empresa pode oferecer um espaço limpo, confortável e reservado, além de condições adequadas para armazenamento do leite. Os colegas também podem contribuir evitando julgamentos e ajudando a criar uma cultura de respeito”, ressalta a enfermeira.
A legislação brasileira também prevê proteção à mulher que amamenta. Conforme o artigo 396 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), até que o bebê complete seis meses, a trabalhadora tem direito, durante a jornada, a dois descansos especiais de meia hora cada um para amamentação, com os horários definidos em acordo individual entre empregada e empregador.
Para Miriam, mais do que falar sobre os benefícios do leite materno, o “Agosto Dourado” é uma oportunidade para discutir as condições necessárias para que a mulher consiga amamentar. “Com informação, planejamento e uma rede de apoio, muitas mães conseguem conciliar trabalho e aleitamento. Amamentar é uma responsabilidade compartilhada: da mãe, da família, dos profissionais de saúde, da sociedade e do ambiente de trabalho. Informação transforma. Apoio fortalece, e uma mãe acolhida tem muito mais condições de seguir sua jornada com segurança”, finaliza.

Érica Magalhães
Assessora de Imprensa