Especialidade ainda pouco conhecida faz com que pacientes só busquem ajuda quando o quadro já está avançado
A ideia de que o desconforto físico constante faz parte do envelhecimento ou da rotina produtiva ainda é um dos principais obstáculos para o cuidado adequado da saúde no Brasil. Dor nas costas, nas articulações ou crises recorrentes acabam sendo incorporadas ao dia a dia, muitas vezes sem investigação adequada da causa.
O alerta é do médico da dor Dr. Francisco Morato, especialista na área e um dos poucos profissionais no país com certificação internacional Fellow of Interventional Pain Practice (FIPP). Segundo ele, a normalização da dor faz com que o paciente demore a buscar ajuda especializada. “O maior mito que enfrentamos é a ideia de que sentir dor é normal. A dor é um sinal do corpo de que algo precisa ser compreendido. Muitas pessoas passam a ignorar esse sinal do corpo por conta da rotina frenética e só procuram atendimento quando o quadro já está mais grave, comprometendo a mobilidade e até a saúde emocional”, afirma Morato.
A medicina da dor ainda é pouco difundida no Brasil. A ausência de disciplinas específicas durante a formação médica contribui para que o problema seja tratado, na maioria das vezes, apenas como um sintoma secundário. “Hoje, a dor ainda é tratada como algo a ser silenciado, e não compreendido. O paciente percorre diferentes tratamentos, muitas vezes sem uma investigação mais profunda da causa. Isso prolonga o sofrimento e dificulta o tratamento”, explica o médico.
Segundo o especialista, a dor não pode ser analisada de forma isolada. Ela pode envolver fatores neurológicos, musculoesqueléticos e também aspectos emocionais, exigindo uma abordagem mais ampla e individualizada. “A dor fragiliza o paciente em vários níveis. Quando ele chega, muitas vezes já está cansado, desacreditado. Por isso, a escuta clínica aprofundada é essencial. Entender o que é importante para aquela pessoa muda completamente a condução clínica”, diz Dr. Francisco.
Cenário e tratamento
Dados do setor indicam que grande parte dos pacientes com dor crônica apresenta melhora significativa com o uso de medicações e técnicas intervencionistas. Ainda assim, a demora no encaminhamento especializado é um dos principais fatores que dificultam a recuperação.
A medicina da dor atua em casos complexos, atendendo pacientes de diferentes idades, de bebês a idosos. Entre as possibilidades de tratamento estão técnicas minimamente invasivas, como bloqueios guiados por imagem, neuromodulação e crioneuroablação, que atuam diretamente nos nervos relacionados à dor. “O sucesso do tratamento está na combinação entre escuta clínica aprofundada e precisão técnica. Entender os valores do paciente permite que a intervenção, como a posição exata de uma agulha em um bloqueio, seja feita com mais efetividade e impacto na qualidade de vida”, afirma Morato.
O especialista também reforça que não existem soluções universais nem promessas rápidas. “Cada paciente tem uma história e uma expectativa. O nosso papel não é prometer resultado, mas construir, junto com ele, as melhores estratégias de tratamento”, explica ele.
Outro ponto que chama atenção é que a intensidade da dor nem sempre está relacionada ao que aparece nos exames. “Nem sempre existe uma correspondência direta entre o exame e o que o paciente sente. Isso não invalida a dor. Pelo contrário, mostra a necessidade de uma avaliação mais completa”, destaca Dr. Francisco.
Para o médico, ampliar o conhecimento sobre o tema é essencial para mudar esse cenário. “A gente ainda precisa falar mais sobre dor. Quando o paciente entende que sentir dor não é normal, ele procura ajuda mais cedo, e isso muda completamente o resultado do tratamento. Na medicina da dor, o objetivo não é apenas fazer a dor desaparecer, mas entender o que ela está tentando dizer., finaliza ele.