Análise indica tendência assimétrica de propagação territorial do novo coronavírus no estado
Atividade de combate ao novo coronavírus em Belo Horizonte
Realizamos esse estudo [publicado como PREPRINT NA PLATAFORMA SCIELO no dia 10/08/2020] com os objetivos de contribuir para o esclarecimento da natureza da dinâmica do emprego dos testes – rápidos e moleculares – em Minas Gerais e vislumbrar possíveis explicações para a assimetria da distribuição da Covid-19 no território mineiro. Isto é, no primeiro caso, saber se os testes seguem um padrão associado à data da primeira inserção da doença no território analisado, ou, ainda, se maiores taxas de incidência e mortalidade estão associadas a um maior número de testes; no segundo caso, encontrar explicações plausíveis para a causa de certas regiões terem uma taxa maior de incidência e mortalidade se comparada a outras regiões mineiras.
Para isso, obtivemos dados epidemiológicos por meio dos websites de saúde dos governos federal e estadual de Minas Gerais. Em seguida, empregamos algumas técnicas estatísticas para fazer a leitura apurada da história que os dados nos contavam, assim, buscamos por padrões de associações entre a taxa de testes, mortalidade, incidência e data da primeira notificação da Covid-19, tanto a nível municipal, quanto a nível das microrregiões de saúde.
A pesquisa nos forneceu achados interessantes. Por exemplo, as taxas de testes seguem positivamente associadas às taxas de mortalidade e incidência, indicando que mais testes são empregados de acordo com o aumento dos casos. Mesmo assim, há certa homogeneidade no emprego dos testes rápidos, os quais estão mais bem distribuídos pelo território, mesmo em regiões com menores taxas de incidência e mortalidade. O mesmo não ocorre com o emprego dos testes moleculares, os quais estão associados a uma maior taxa de mortalidade. Além disso, as taxas de incidência e mortalidade seguem forte relação temporal, isto é, quanto mais tardia a introdução da doença no território menores essas taxas tendem a ser.
O que chamou mais a atenção, entretanto, foi o padrão de distribuição territorial da Covid-19. As regiões mais populosas e hierarquicamente mais importantes do estado foram aquelas que tiveram as primeiras notificações da doença, portanto, onde possivelmente houve as primeiras introduções da doença no território mineiro. Ademais, são as regiões que concentram as maiores taxas de incidência e mortalidade. Como exemplo, as duas cidades mineiras mais populosas e mais importantes hierarquicamente, Belo Horizonte e Uberlândia, foram aquelas que contabilizaram cerca de 26% de todos os casos da doença até a data de análise, apesar de contar com apenas cerca de 10% da população total do estado. Esse achado indica a tendência assimétrica de propagação territorial do vírus.
Fica evidente, portanto, que conhecer o nível hierárquico do território e aspectos demográficos importantes, tais como o tamanho da população, poderiam impactar positivamente no planejamento de saúde para lidar mais efetivamente com a progressão da doença. Isso se dá, pois regiões mais afluentes tendem a receber precocemente o vírus em seu território, contribuindo para maiores taxas de incidência, mortalidade e testes.
*Milton José da Silva-Júnior é graduando em Medicina da Faculdade de Medicina da UFU.
**Stefan Vilges de Oliveira é docente da Faculdade de Medicina da UFU.
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Fonte: UFU