Professores do Instituto de Biologia da UFU publicaram artigo na revista Annals of Botany, editada pela Oxford Academic
As formigas do gênero Camponotus são mais favoráveis para polinizar pequenas flores no Cerrado
Algumas plantas precisam de um empurrãozinho para a reprodução: o vento, a água e até os animais, como as abelhas, transportam o pólen (gameta masculino) até as flores para que ocorra a fecundação. Esse transporte de gametas é chamado de polinização.
Até então, a participação das formigas nesse triângulo amoroso era pouco estudada. Em uma pesquisa em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), os pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) concluíram que esses pequenos insetos são importantes cupidos para a reprodução das plantas, especialmente no bioma cerrado.
Os docentes Helena Maura Torezan Silingardi e Kleber Del-Claro, ambos do Instituto de Biologia (Inbio/UFU), publicaram um artigo na revista internacional Annals of Botany – que existe desde 1887 e é bastante renomada entre os cientistas (acesse o estudo aqui). A polinização, nesse caso, acontece em situações bastantes específicas.
Os professores destacam que não são todas as espécies que conseguem participar dessa união. A pesquisa observou as formigas do grupo Camponotus, que abriga cerca de 600 espécies. Elas não possuem a glândula secretora metapleural, e é justamente essa ausência que confere a capacidade polinizadora: “a maioria delas tem essa glândula que produz um antibiótico que mata o pólen. Elas ficam esfregando a substância no corpo inteiro, para não pegar bactérias quando estiverem embaixo da terra”, explica o biólogo Del-Claro.
Como em qualquer relacionamento, há interesses e trocas de favores: a planta oferece comida, e a formiga retribui o presente com o transporte de gametas. Segundo Del-Claro, a formiga sobe nas flores próximas ao solo em busca do néctar: “o néctar tem água, um recurso bastante difícil de ser encontrado no cerrado, além de açúcar e aminoácidos, substâncias nutritiva para as elas.”
Outro fator que influencia a ocorrência desse processo é o ambiente. “Além de acontecer em ambiente seco, onde a disponibilidade de água e nutrientes não é abundante, a polinização pelas formigas acontece em plantas de pequeno porte, como arbustos, gramíneas e ervas, ou seja, em árvores isso não acontece”, informa a professora Silingardi. É comum pensar que a as flores grandes e com cores chamativas são as mais atraentes. Porém, as flores pequenas, brancas ou esverdeadas são as que mais seduzem as formigas.
O tamanho das formigas nos ecossistemas
O trabalho de observação das formigas no meio ambiente exigiu muita atenção e cuidado dos pesquisadores. As idas a campo aconteceram na reserva ecológica do Clube Caça e Pesca Itororó de Uberlândia. “Normalmente, o que a gente faz é ir ao campo semanalmente, prestando atenção nas modificações no ambiente, e observando não apenas as coisas grandes, mas as pequenas também”, explica Del-Claro.
Para se ter uma ideia da importância desses animais para o meio ambiente, alguns cientistas estimam que cerca de um terço de toda a biomassa animal da floresta Amazônica de terra firme é composta por formigas e cupins. Aqui no Cerrado, por exemplo, elas fazem um trabalho importante como predadoras naturais de pragas que podem chegar às lavouras, conforme Del-Claro.
“As espécies do gênero Componotus são grandes participantes das redes ecológicas de interações. Essas redes de conexões ligam as formigas a muitas espécies de plantas, a redes ecológicas de interações distintas, ou seja, são muito importantes para a manutenção da biodiversidade. Elas fazem predação, diminuem o parasitismo, podem fazer até mesmo dispersão de sementes, são seres muito importantes em sistemas estruturadores de comunidades”, explica o biólogo.
Por fim, a professora Silingardi deixa um convite: “alunos interessados em estudar qualquer tipo de interação ecológica são muito bem vindos no Laboratório de Ecologia Comportamental e de Interações. Podem trabalhar com a gente na graduação e na pós-graduação também”.
Fonte: UFU
