Uberlândia

Dissertação em Artes aborda cena heavy metal no Triângulo Mineiro

Estudo demonstra potencial estético do estilo musical a partir da multiplicidade de expressões

Longos solos de guitarra, vocal agressivo, headbangers, som alto e distorcido. “Experiência estética no heavy metal: uma análise a partir da cena uberlandense e seu entorno” foi o título da dissertação de mestrado de Igor Carvalho Rodrigues, do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal de Uberlândia (PPGARTES/UFU).

No trabalho, o pesquisador analisa as manifestações do heavy metal no Triângulo Mineiro e no seu entorno, mas não se restringe a essa região. O estilo musical é abordado como “um movimento cultural de multilinguagens estéticas”, já que existem também produtos como flyers, capas dos álbuns, fotos promocionais, fanzines (revistinhas produzidas por fãs), videoclipes, filmes, danças e vestuário.

Flyers anunciando shows das bandas Poison e L.A. Guns que aparecem na dissertação (Imagens: acervo Walk The Strip).

Um dos aspectos que se destacam na dissertação é sua adaptação visual. Com folhas quadradas, que remetem a discos de vinil, e ilustrações feitas pelo autor, a ideia é apresentar coerência com o objeto estudado e complementar as discussões feitas. “Um dos pontos do trabalho é mostrar que o heavy metal transcende a esfera musical. Essa série de ilustrações, que chamei de ‘A arte do heavy metal’, é composta de cinco gravuras feitas a partir da técnica de serigrafia. Elas foram apresentadas em uma exposição dos alunos do curso de Pós-Graduação em Artes no começo de 2018”, explica Rodrigues.

Desenho que ilustra o 1º capítulo da tese de Igor Rodrigues

A relevância da dissertação vem da necessidade de se discutir o significado da arte e promover mais discussões relacionadas à educação artística. “Acredito que estudar arte não é apenas estudar a história da arte ocidental pré-definida a qual conhecemos. É preciso entender que nas experiências que nos cercam existem conteúdos para se discutir a estética e a arte na nossa vida. O meu trabalho, assim como o de muitos pesquisadores, pretende trazer para o nosso mundo discussões que podem parecer desinteressantes quando estão fora de contexto e distantes da realidade em que vivemos. A arte não é apenas a de museu”, afirma.

Heavy metal triangulino

No capítulo “Triângulo satânico mineiro” são apresentados artistas que fomentam o heavy metal na região. Nele, Rodrigues analisa materiais como álbuns, flyers e fotos na época na tentativa de entender a visualidade que estava sendo criada na época e que ainda existe.

Em “Cruz Invertida”, o autor cita veteranos do estilo musical na região: Cláudio “Escaravelho”, residente em Araguari e formador da banda “Escaravelho do Diabo”, tem apoiado a cena por anos, realizando festivais e eventos. Já Juarez “Tibanha”, de Uberlândia, já participou de duas bandas: “Cirrhosis” e “Scourge”.

E no capítulo “Invasão glam”, Rodrigues ressalta o movimento que começou nos anos 2000 e segue até os anos 2010, “sendo responsável por lançar bandas autorais que se identificavam com o subgênero glam, trazendo uma nova abordagem estética ao heavy metal da região do Triângulo Mineiro”, de acordo com a dissertação.

Por que metal?

A dissertação tem raízes na vida pessoal de Rodrigues. O gosto pelo heavy metal foi influência do tio Wagner Martins. “O que meu tio Waguin fez para mim mudou minha vida. Ele me apresentou o rock’n’roll e o heavy metal enquanto eu ainda era uma criança. Isso realmente mudou minha vida, pois aqui estou eu, falando dele, do meu trabalho e a importância de estudar e pesquisar algo que realmente importa”, conta.

Igor e seu tio Waguin (Foto: Hylana Menhô/acervo do autor)

Por volta dos anos 1990, durante a infância de Rodrigues, se intensificava em Uberlândia uma cena de jovens que desejavam levar o heavy metal como estilo de vida. Mas foi apenas em 2007 que ele fundou sua própria banda, a Killer Klowns. “O grupo parou as atividades em meados de 2015, mais ou menos. Todos nós, da última formação, ainda moramos em Uberlândia e também fazemos um som hora ou outra, mas nada que se compara ao pique que estávamos uns anos atrás. Não acabou, mas não está ativa”, explica.

Imagem promocional da Killer Klowns em 2008 (Foto: Divulgação).

Igor Rodrigues reitera, ainda, que a estética do heavy metal pode ser vivida além da esfera musical, já que pode ser percebida mesmo antes das performances. “Os shows que fiz durante anos serviram como um ritual onde pude sentir a verdadeira força que o metal pode ter. No instante em que abria os olhos, o pensamento de que iria fazer um show atacava minha mente e me acordava, como uma injeção de adrenalina. Não sentia fome, apenas uma ansiedade de chegar a hora de subir ao palco e dar o melhor de mim”, narra, na dissertação.

Para consultar o trabalho de Igor Rodrigues Carvalho, basta acessar o Repositório Institucional da UFU.

Fonte: UFU