Histórias da vida

Doce resgate de uma vida

(Por Tayla Kuhnen)

Acordei com o som estridente do maldito despertador, me levantei da cama e o desliguei. O quarto estava confortavelmente quente, graças ao aquecedor que ficava ao lado da janela. Me dirigi para o banheiro, tomei um banho e depois de finalizar com óleo corporal perfumado arrumei meus cabelos, escovei os dentes e voltei para o quarto.

Coloquei uma roupa quente para suportar o frio que imaginava estar intenso, já que eu podia ouvir a neve caindo suavemente no telhado. Logo em seguida, cheguei na cozinha e fiquei alguns minutos parada ali, pensando se preparava algo para o café da manhã, ou comer fora seria melhor. Decidi que comeria algo em uma cafeteria perto de casa.

Abri a porta de casa que dava direto para a garagem, mas senti o chão incrivelmente frio. Não é possível, pensei. Eu havia esquecido de colocar meus sapatos. Eu estava muito distraída ultimamente e nem sabia dizer o porquê.

Corri até meu quarto, coloquei um sapato preto com um salto bem confortável e voltei para a garagem. Agora, tudo parecia estar em ordem.

Abri a porta do carro e me joguei no assento do motorista, como se fosse uma criança. Fechei a porta e liguei o motor. Ao parar o carro em frente a cafeteria comecei a refazer meus passos mentalmente e percebi que não havia trancado o portão da entrada. Dei um soco no painel, e acabei fazendo um pequeno risco com meu anel. Imediatamente liguei para minha vizinha, e pedi que ela fechasse o portão manualmente, já que o controle estava comigo. Depois de tudo resolvido, saí do carro e por causa do frio andei apressada em direção a entrada do estabelecimento.

Ao entrar, um cheiro de café, misturado com canela e outras essências invadiram minhas narinas, junto com um calor que era reconfortante. Eu ficava impressionada como coisas tão simples me deixavam feliz.

Me sentei em um lugar que tinha espaço para duas pessoas, para que ninguém me incomodasse e uma garçonete, que aparentava ter uns 40 anos, olhos verdes e incrivelmente inchados se aproximou:

— O que você deseja, minha jovem?

Perguntou, em uma voz suave.

— Um café médio e algumas torradas com geleia, por favor.

— Está bem.

Não demorou muito, ela voltou com o meu pedido, eu agradeci e ela saiu.

Comi as torradas e em seguida bebi um pouco do café, que estava horrível. Lembrei então, que eu havia esquecido do açúcar e imediatamente peguei um sachê que vinha na bandeja e comecei a tentar abri-lo. Puxei um lado, depois o outro e aquele plástico tão fino não sedia as minhas investidas. Decidi levar o pacotinho até a boca, para abrir com o dente. Estava me sentindo ridícula e percebi que algumas pessoas já me observavam. Senti minha face ficando quente e vi um homem jovem que segurava um copo de chocolate quente se aproximando.

— Quer uma ajudinha com o açúcar? Falou com uma voz baixa e tímida.

— Por favor, respondi meio sem graça.

Imediatamente, ele colocou o copo que segurava na mesa, pegou o pacotinho, e o abriu com uma facilidade que me fez sentir raiva. Com delicadeza, colocou em minha xícara.

— Obrigada! Eu disse.

— Imagina.

— Você pode abrir mais um? Gosto de café bem doce, falei. Ele imediatamente abriu o outro pacotinho e colocou no café.

— Agora sim, obrigada.

— Não precisa agradecer, ele disse.

— Quando eu precisar colocar açúcar no café, já sei quem vou chamar para ajudar, respondi dando uma risadinha.

— Bom, acho que isso não será possível, minha adorável jovem. Ele respondeu, já se sentando ao meu lado.

— Entendi, você não é daqui, não é?

— Sou, mas… Bom acho que isso não vem ao caso.

— Qual seu nome? Perguntei curiosa.

— Você não precisa desta informação para manter uma conversa, precisa? Ele me falou em um tom meio interrogativo.

— Eu gosto de chamar as pessoas pelo nome e isso é bem comum. Respondi

— A partir do momento que você sabe o nome de alguém, de alguma forma, você acaba criando um vínculo com a pessoa e isso é bem desnecessário. Falou, enquanto bebia um pouco do chocolate

Mas que conversa mais maluca, pensei.

— Cara você é estranho.

— É, isso que todos dizem. Inteligente demais, inseguro demais, impaciente e… e estranho? Acho que isso eu ainda não tinha ouvido.

Me olhava sério, enquanto dizia essas coisas.

— Você quer conversar? Perguntei esperando ouvir uma resposta positiva. Adorava aconselhar os outros.

— Acho que você não ia gostar do meu papo, me disse desviando o olhar.

— Não custa tentar. Acho que aguento, já ouvi tantos absurdos que você nem imagina.

— Já que você está tão interessada em saber, só posso dizer que hoje é o fim.

— Como é? Perguntei perplexa.

— Eu vou dar um basta nessa vida miserável. Ele disse com uma voz que deixava transparecer raiva.

— Mas você não pode acabar com tudo assim. Eu penso que você deveria procurar alguma…

— Ajuda você quer dizer? Me interrompeu antes que eu pudesse finalizar.

— Bom, existem muitas pessoas nessa situação, mas não é o fim, não precisa ser assim.

— Você não sabe nada sobre minha vida. E deu um soco na mesa.

Sabe como é ser o centro das atenções desde criança? Sabe como é acordar todos os dias sentindo o medo de fracassar? E o pior de tudo, é que você sabe que não pode fracassar, pois para sua família e colegas de trabalho, você é considerado o melhor naquilo que faz.

As pessoas esquecem que eu sou humano, mas o pior de tudo, é que depois de tanta cobrança dos outros, eu também acabo por me cobrar mais e mais. Não encontro outra maneira de sair disso.

Depois de despejar tudo aquilo que o afligia, ele abaixou a cabeça e pude notar lágrimas em seus olhos.

Minha única reação foi tocar de leve a sua mão.

— Eu sei que não basta e que isso nem faz sentido, mas eu estou aqui. Eu…

Tive que interromper minha própria fala, porque isso era um absurdo. O que eu estava fazendo? Eu nem o conhecia, e agora, não estava reconhecendo nem a mim.

— Acho que nem você sabe o que está dizendo, né moça?

— Pode ser, mas agora eu estou envolvida com a situação. Porque você jogou tudo isso para cima de mim, dessa maneira?

— Percebi que falar dos problemas com estranhos, os tornam menos idiotas. Enquanto dizia essas palavras, olhava fixamente em meus olhos.

— Bom, penso que nossos problemas não são idiotas, pelo menos para nós, que os sentimos. Você sabe que não pode exigir de uma pessoa que ela entenda o que você sente.

— Eu sei, mas… É tudo muito confuso moça.

— Se eu te pedir para não fazer o que está pensando, você me ouviria então? Perguntei, mas já sabendo a resposta.

— O que você acha? Ele perguntou.

— Eu já sei a resposta na verdade. Já que o que eu disser não vai te fazer mudar de ideia, vamos mudar de assunto?

— Claro, é o melhor a se fazer, ele concordou.

— O que você faz da vida? Perguntei.

— Sou médico. Ele disse, desviando o olhar novamente.

— E você gosta desta profissão?

— Gosto.

— Acho que você não quer falar sobre isso, certo?

— Certo. Mas você o que faz? Ele perguntou.

— Sou assistente social, respondi animada.

— Interessante, acho que é daí que vem sua vontade de ajudar.

— Pode ser. E continuei, mudando o assunto outra vez.

— Que frio está fazendo hoje não é? Odeio frio, ele me deixa distraída, mais do que o normal.

Ele sorriu

— Você não me parece distraída moça. E quanto ao frio, dizem que o lugar para onde eu possivelmente irei é extremamente aquecido, e lá o frio não será problema.

Mas como esse cara consegue ser tão estúpido? Pensei com raiva.

— Bom, eu preciso trabalhar, disse já sem paciência.

— Tudo bem, ele respondeu.

Me olhava de um jeito, como se estivesse implorando para que eu ficasse.

Levantei rapidamente e fui pagar a conta. Ele ainda me olhava, mas eu fingia que não era comigo. Entreguei o dinheiro no caixa e saí apressada.

Entrei no carro e por algum motivo abri o vidro…

Percebi, que ele estava saindo da cafeteria com a cabeça baixa e ainda era possível ver tristeza em seu olhar.

Sem pensar duas vezes, saí do carro e corri ao seu encontro. O abracei e pedi que ele desse mais uma chance a si mesmo.

Eu estava chorando abraçada a ele e não entendia aquela reação. Mas ele, me pedia para ficar calma.

— Tudo vai ficar bem, eu prometo a você. Dizia, enquanto acariciava meus cabelos.

— Desculpe, eu não entendo o que está acontecendo comigo. Falei confusa.

— Nós não precisamos entender tudo, mocinha.

Permanecemos abraçados por longos minutos. Eu agora sentia uma paz, que a muito tempo não experimentava.

Ele era tão misterioso, estúpido e tão… tão doce. Isso não poderia terminar assim.

— Eu preciso de você para abrir pacotinhos de açúcar, falei com a voz embargada. Acho que isso foi muito idiota de minha parte, mas eu não entendia que diabos estava acontecendo ali.

— Você precisa aprender a fazer isso sozinha viu? Ele disse com uma voz calma e sorrindo.

Você conseguiu tirar carteira, mas não é capaz de abrir um sachê de açúcar? Por favor, acho que vou conversar com o infeliz que te deu a carteira.

Caímos na risada.

Como ele conseguia ser tão único, tão idiota e tão meu?

Como eu poderia ter pensamentos desse tipo com uma pessoa que nem sei o nome? Eram muitas perguntas, mas naquele momento eu não encontrava resposta para nenhuma delas.

Ele então olhou para meu carro, e ainda abraçados seguimos para lá. Abriu a porta, me pegou no colo e me colocou sentada. Me deu um beijo na testa, cheio de carinho e enquanto acariciava minha face me disse as seguintes palavras:

— Obrigada por tudo. Eu vou lembrar de você até o último momento, agora vá. Siga sua vida e aprenda a abrir sachês de açúcar, por favor? Faça isso por mim.

Fechou a porta do carro e saiu.

Eu fiquei olhando, enquanto o seu carro se afastava.

Abri a porta do carro, fui até a cafeteria novamente e ao chegar perto da mesa onde estávamos, tudo ainda se encontrava como eu havia deixado. Peguei os dois pacotinhos de açúcar vazios, coloquei em minha bolsa e fui até o balcão.

— Com licença, você tem alguma informação sobre o homem que estava comigo? Nome, alguma coisa?

A balconista ficou me olhando de um jeito confuso, parecia não estar entendendo a situação.

Bom, mas nem eu entendia, então.

— Me desculpe, ela disse. Eu não sei nada, ele pagou a conta sem nem olhar na minha cara.

— Entendi, disse em um tom decepcionado e saí.

Tentei trabalhar normalmente aquele dia, mas nem preciso dizer que foi impossível. A imagem daquele homem que nem fazia meu tipo não saía da minha mente.

Depois do trabalho, havia marcado de jantar com um amigo, mas não tinha cabeça e acabei cancelando.

Voltei para casa e resolvi tomar um banho para depois dormir. Era tudo que eu queria. Após o banho, coloquei uma roupa confortável e me deitei na cama. Peguei minha bolsa que estava na mesinha de cabeceira e abri. Mordi um chocolate mas até o sabor parecia estar diferente.

— Que ódio! gritei, jogando a bolsa para longe. Com o impacto, percebi que os pacotinhos de açúcar caíram no chão. Imediatamente me levantei para pegá-los.

Confesso que dormi segurando aqueles malditos sachês. O perfume dele ainda estava lá…

Acordei com o som do bendito despertador. Agora ele era bendito, pois me acordou de um pesadelo.

Eu estava nos braços dele, aquele homem que eu não conhecia e de repente só conseguia vê-lo deitado em uma banheira, com os pulsos cortados. Ao seu lado, havia um bisturi e o cheiro de sangue era sufocante. Dei graças a Deus quando acordei.

Coloquei uma roupa qualquer, arrumei meus cabelos, peguei os pacotinhos de açúcar e saí.

Não levei bolsa, celular, nada. Decidi que nem iria trabalhar.

Estacionei meu carro na frente do IML, eu precisava verificar algo.

— Não acredito que estou fazendo isso! dei outro soco no painel do carro.

Ele não estaria lá, eu acho.

Eu espero que ele não esteja lá.

Saí do carro e comecei a subir as escadas que me levaria ao andar principal.

Meu coração estava acelerado. A respiração estava difícil, uma vontade de chorar estava me dominando. Ao chegar na recepção, me senti tonta. Algumas pessoas que ali estavam, me colocaram sentada e me deram água com… com açúcar…

Eu bebi com muita dificuldade e agradeci.

Quando já estava me sentindo melhor, levantei e fui até o balcão de informação.

— Como eu faço para ter acesso aos corpos que aguardam identificação?

— Você tem algum conhecido desaparecido? A atendente perguntou.

— Sim, respondi aflita. Falei o nome de um amigo qualquer.

— Bom, vamos ver.

Ela foi comigo até outra sala e me deu uma ficha para preencher. Era ridículo o que eu estava fazendo, preenchendo os dados do meu amigo, como se ele realmente estivesse desaparecido e morto.

Fiz isso rapidamente e então fui levada a outra sala incrivelmente gelada.

Um médico se aproximou e eu expliquei a situação. Ele me levou até um enorme refrigerador e o abriu.

Naquele momento meu coração disparou outra vez e entrei em desespero. Eu não conseguia olhar

— Eu… eu não posso, não da…

— Calma moça. Disse o médico que estava ao meu lado.

Criei coragem e comecei a olhar, cadáver por cadáver. O cheiro era estranho, me dava náuseas.

Vi um rosto que me fez sentir trêmula. Mas ao analisar melhor, percebi que não se tratava dele.

A verdade, é que nada encontrei. Fui tomada por uma sensação de alívio, agradeci o médico e saí correndo dali. Aquele lugar era horrível.

Entrei no carro, e peguei os pacotinhos de açúcar e os levei até meu nariz. O perfume ainda estava lá.

Dirigi até a cafeteria e lá fiquei. Sentada naquele mesmo lugar, olhando para o vazio, sem saber o que fazer, em que lugares eu poderia procurar…

Permaneci ali sentada, por longos minutos. Não conseguia pensar em nada que não fosse naquele rosto e na terrível imagem que vi em meu pesadelo.

Milhares de coisas passavam em minha mente. Eu ficava tentando imaginar, de que maneira ele colocaria fim em sua vida. As imagens que se formavam era uma pior que a outra e isso foi me deixando cada vez mais assustada.

De repente fui tomada por um sentimento que não consigo definir, mas criei coragem e levantei de onde estava e saí para a rua. Me aproximei do carro, abri a porta e entrei. Acelerei o mais rápido que pude, mas nem sabia ao certo para onde estava indo. Atravessei o sinal vermelho por duas vezes, e na segunda vez, pude ouvir algumas buzinas e imediatamente me senti irritada. No terceiro sinal, resolvi parar, pois isso poderia me causar alguns problemas e eu não precisava de mais nenhum.

Enquanto esperava o sinal abrir, percebi um carro em minha frente, parecia ser o dele. Senti minhas mãos trêmulas e o coração ficou acelerado. Não tinha como eu saber se aquele era seu carro, já que não havia prestado atenção na placa mais senti meu coração se enchendo de esperança. A única saída que encontrei foi segui-lo, pois em algum momento ele precisaria parar.

Passaram-se umas 3h mais ou menos e eu continuava seguindo aquele bendito carro.

Eu não conheço uma pessoa mais idiota do que eu. Esbravejei comigo mesma.

Ao olhar para o painel, avistei o risco feito pelo anel no dia anterior e percebi que o combustível já estava na reserva.

— Só me faltava essa, que inferno! Gritava dentro do carro como se fosse uma louca. Havia um posto ali perto, mas se eu parasse o perderia de vista.

— Será que esse infeliz vai mais longe? Falei em voz alta, como se esperasse ouvir uma resposta.

Não tive escolha e continuei seguindo o desgraçado. Corria um grande risco de ficar na estrada, mas não ligava para isso, acredito que eu tenha deixado o juízo em casa aquele dia

E finalmente o motor parou de funcionar, quando estava passando em frente a um cemitério. Fiquei olhando, imaginando que aquele carro se afastaria, mas ele também parou.

Será que ele me viu aqui? O que vou dizer? E se não for ele? Minha mente trabalhava a mil.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho de uma porta se abrindo. Os carros estavam muito próximos, então não tinha como não ouvir.

Quando olhei o sujeito que saía do automóvel percebi que se tratava realmente de um homem. Ele fechou a porta e a passos lentos foi se dirigindo para a entrada do cemitério, com a cabeça baixa. Como não consegui ver o rosto, resolvi abrir o vidro. Foi aí, que reconheci o cabelo.

Meu coração parecia que ia pular fora de meu corpo, eu podia até ouvi-lo.

Abri a porta do carro e saí. Nem me dei o trabalho de fechá-la, pois o barulho poderia chamar sua atenção, eu já podia sentir o seu perfume.

Ouvi o portão sendo aberto e esperei que ele ficasse um pouco mais distante, para que assim eu pudesse entrar sem ser vista. Ele realmente não estava prestando atenção em nada. É como se sua mente estivesse em qualquer outro lugar.

Comecei a segui-lo, até que ele parou em um túmulo.

Era uma moça bem jovem e linda.

Será que era a sua esposa? Pensei. Por um momento, senti uma espécie de ciúmes e ri internamente. Isso não estava acontecendo, não comigo.

Ele chorava baixinho. Senti uma vontade de abraçá-lo, mas não poderia.

Eu agora estava mais próxima dele, mas minha presença ainda não havia sido notada. Então, ele retirou um bisturi do bolso de seu casaco e em seguida tirou o mesmo de seu corpo deixando seus braços à mostra.

Com cuidado, levou o bisturi até seu pulso esquerdo, respirou fundo e começou a fazer força, para que o objeto o cortasse.

Nesse momento, foi impossível me segurar.

Corri até ele, e consegui puxar o bisturi de sua mão.

Ele me olhou, seus olhos estavam arregalados. Minha única reação era apertar aquele objeto em minhas mãos, como se estivesse protegendo minha própria vida. Ele com certeza tentaria tirá-lo de mim, mas eu não ia deixar.

— Você é louca moça? O que pensa que está fazendo? Me devolva isso!

Ele gritava.

— Não posso. Falei com dificuldade. Eu chorava e minha voz quase não saía.

— Você lembra quando eu disse que estava envolvida com a situação? Pensar em você, é tudo que eu tenho feito desde ontem.

Eu havia perdido o controle e não conseguia parar de falar. Enquanto eu falava, o nervosismo aumentava e eu apertava ainda mais aquele maldito bisturi em minha mão.

— Eu tive pesadelos com você, fui até o IML procurar seu corpo e fiquei muito aliviada quando não encontrei.

Ele me olhava incrédulo.

— Eu sei que não faz sentido, eu te segui até aqui, mas na verdade não tinha certeza se o carro era realmente seu. Por isso eu te peço, não faça isso, não faça!

Eu agora estava gritando.

Ele se levantou de onde estava e me abraçou.

— Na verdade eu queria que você não estivesse ido embora ontem. Você me fez sentir especial de alguma forma, mas quando percebi que você já estava realmente envolvida eu pensei que você merecia alguém melhor. Mas você veio, você está aqui. Será que isso é destino? Ou será que isso é Deus, me dando mais uma chance.

Venha cá, abra sua mão.

— Não vou abrir. Você vai tentar…

— Não, prometo que vou ficar quietinho, você veio, lembra?

Com cuidado, fui abrindo minha mão e ela estava cheia de sangue. Antes não senti dor alguma, acho que estava cheia de adrenalina, mas agora ela estava ali e era quase insuportável.

— Nossa isso está horrível! Falei, enquanto olhava para os machucados.

— Isso é culpa minha. falou com uma voz triste.

— Não! Pare de se culpar, por favor. Implorei.

— Mais uma coisa: me desculpe por te deixar ir.

— Isso não é culpa sua. Disse, agora pegando em minha mão machucada.

Vamos ter que cuidar disso, mocinha.

— Eu sei, é você que vai cuidar, promete?

— Prometo.

— Você se cortou muito? Perguntei preocupada.

— Não, nem deu tempo, você foi mais rápida.

— Que bom, fico feliz! Falei animada com minha rapidez.

Olhei novamente para a moça da foto.

— Quem é ela? Perguntei curiosa.

— Minha mãe. Respondeu dando um leve sorriso. Ela era maravilhosa.

Eu não resisti, e com a outra mão, fiz um carinho em sua face.

— Vamos para meu carro. Ele disse, enquanto pegava o casaco que havia tirado.

Fui andando ao seu lado e escorreguei. Ele me segurou, antes que eu caísse. O chão estava escorregadio, por causa da neve do dia anterior.

Me pegou em seu colo e me levou até seu carro. Agora me olhava de um jeito diferente, como se quisesse cuidar de mim para sempre.

Me colocou sentada no banco do carona e se sentou ao meu lado no lugar do motorista. Pegou uma maleta e retirou alguns objetos. Pegou minha mão e com cuidado, foi fazendo curativo nos machucados. Eu precisei levar alguns pontos, pois estava realmente bem complicada minha situação. Ao olhar para minhas roupas, só conseguia ver sangue e seu casaco, estava completamente molhado também, eu realmente tinha feito muita sujeira.

— Você é maluquinha. E deu uma risada.

— Eu? Pense melhor. Respondi também sorrindo.

— Bom, acho que nós dois temos alguns problemas. Disse, enquanto aproximava sua face da minha.

Nos olhamos por alguns segundos e ele então se afastou.

Me senti decepcionada, sei lá se posso dizer assim. Ele pegou um líquido parecido com álcool e limpou sua mão suja de sangue. Colocou a maleta no banco de trás e começou a mexer na manivela do banco onde eu estava sentada. Com cuidado, pegou no meu rosto e me colocou deitada.

— Você está com dor? Perguntou com uma voz suave.

— Um pouco, mas é suportável.

— Precisa de analgésicos. Disse, enquanto abria o porta-luvas.

— Não, eu estou bem. Respondi, sem graça.

Ele então fechou o porta-luvas e ficou me olhando.

Não fazia meu tipo, mas era tão lindo… Eu não conseguia encontrar palavras para definir aquele homem.

— Obrigada por tudo, mais uma vez. Você é linda. Falou, enquanto aproximava seu rosto do meu novamente.

Eu nem tive tempo de agradecer.

Nos beijamos e o tempo parou. Os movimentos de nossos lábios se encaixavam, era perfeito. Sua língua explorava minha boca com uma intensidade que eu até então não havia experimentado. Era como se não tivesse o amanhã, e talvez não houvesse, já que eu não sabia o que poderia acontecer depois.

Enquanto me beijava, foi abrindo os botões do casaco incrivelmente pesado e quente que eu usava. Parou o beijo, se afastou para que pudesse retirá-lo do meu corpo e assim fez. Jogou o casaco para o banco de trás e voltou a me beijar. Minutos depois, parou, se afastou novamente e tirou todas as roupas que eu vestia, se livrou delas e me beijou. Agora explorava todo meu corpo com sua língua e suas mãos. Sentir o seu hálito quente me fazia arrepiar dos pés à cabeça. Sua respiração assim como a minha, era ofegante. Era uma mistura de sensações. Meu corpo tremia, formigava, arrepiava, eu nunca havia sentido tudo isso.

Claro que tive alguns namorados, mas nenhum deles havia conseguido me proporcionar tais sensações.

Ele se afastou mais uma vez, tirou suas roupas e deitou o seu corpo sobre o meu. O carro era pequeno e não muito confortável, mas ninguém se importava com isso naquele momento. Voltou a fazer carícias com a língua em meu corpo e minutos depois, nós éramos apenas um…

Quando conseguimos nos recompor, conversamos e eu expliquei que o meu carro estava sem combustível.

— Tudo isso por causa de mim? Falou rindo. A propósito, me chamo Harry, se te interessar. Acho que agora não tenho mais que me preocupar em deixar de criar vínculos, não é?

— Já que é assim, prazer em conhecê-lo, DR Harry. Me chamo Sophia.

Eu o abracei e nos beijamos novamente.

Era tudo muito louco. Eu havia sido imprudente na verdade, mas agora tudo fazia e deixava de fazer sentido e eu gostava disso.

1 ano depois do acontecido ele me pediu em casamento, naquela mesma cafeteria. Entregou o anel dentro de um pacotinho de açúcar. Eu ri da situação e ele ficou meio sem graça.

6 meses depois, chegou o dia do casamento. Rápido demais? Isso é o que algumas pessoas me diziam. Mas eu não ligava, eu não poderia perder tempo.

Era estranho ver meus pais e irmãos depois de alguns anos, mas eu estava feliz. Gostaria de encontrar outra palavra para definir o que sentia, pois felicidade parecia ser tão pouco…

Meu vestido era lindo: era tomara que caia, um decote coração. Em tecido zibeline de seda italiana que marcava minha silhueta até a cintura, de onde surgia uma saia. Havia rendas francesas, com estampa de florais e cristais swarovski que foram bordados na renda, assim como outras pedrarias.

O local escolhido para realizar a cerimónia foi a nossa cafeteria.

Eu estava de pé na entrada, enquanto segurava a mão de meu pai. Ele estava emocionado, assim como eu.

— Vamos, está na hora disse minha mãe. Comecei a ouvir o piano, que era tocado por uma de minhas irmãs. A música era “My Love, My Life”, música que sempre gostei desde criança.

Eu estava gelada e tremendo. Ao entrar na cafeteria tudo estava impecável. A decoração, era composta por flores de todos os tipos e panos brancos cobriam as mesas e as cadeiras. Em cada mesa, havia um arranjo de flor comestível, e cada vaso continha um sachê de açúcar, só para não perder o costume.

Nos aproximamos do altar improvisado e lá estava ele. Mais lindo do que nunca.

— Cuide bem dela. Disse meu pai, enquanto colocava minha mão sobre a dele.

— Ela me salvou. Disse ele, enquanto me trazia mais para perto de si.

O juiz de paz Eclesiástico começou a cerimónia e depois de dizer algumas palavras chegamos na parte dos votos.

Eu nem tinha conseguido escrever nada, porque nunca fui boa com essas coisas. Falei o que veio em minha mente e percebi que ficou mexido com minhas palavras.

Mas a surpresa realmente aconteceu, quando ele começou a falar seus votos. Não tinha nenhum papel em sua mão, apenas um… Adivinhem?

— A verdade é que hoje eu não estaria aqui, mas estou, por causa dessa linda mocinha. Eu sempre tive muita facilidade com algumas coisas e por causa disso, minha família sempre me admirou. Com 3 anos de idade eu já conseguia ler,, isso é para poucos. E eu fui crescendo e sempre estive rodeado de muitas pessoas e elogios. Me acostumei com isso e acabei me convencendo de que eu realmente era tudo aquilo que diziam e mais um pouco.

Mas tudo tem limite, não é mesmo? Com o passar dos anos fui descobrindo que ser bom em muitas coisas não me tornava melhor do que ninguém. Eu tinha muitas responsabilidades e isso começou a pesar e era um peso quase insuportável.

No trabalho eu me dedicava, sempre buscando aprender mais, dava o meu melhor. Mas a verdade é que eu não estava nem conseguindo mais respirar. Eu estava à beira de um abismo, gritando por ajuda, enquanto todos me olhavam, mas ninguém ouvia, ninguém ajudava. Era assim que eu me sentia.

Perdi minha mãe quando era criança e ela sempre fez falta. Acho que ela me entenderia, não sei.

E foi então que decidi, naquela manhã fria de novembro, que acabaria com tudo. Vim até essa cafeteria para fazer minha última refeição e encontrei você.

Ele então segurou minhas mãos e todos olhavam, espantados.

Você estava sentada em um lugar mais reservado e tentava insistentemente abrir um sachê de açúcar para colocar em seu café. A tarefa estava realmente difícil não é? E eu me ofereci para ajudar. Começamos a conversar, te falei dos meus problemas e você tentava entender, mas acabou se irritando com o meu jeito, eu sei. Se levantou e saiu. E eu fiquei ali um tempo sentado, desesperado. Eu agora tinha perdido você também, e não conseguia mais suportar. Eu realmente era uma pessoa tóxica.

Paguei a conta, fui até meu carro e você por algum motivo correu ao meu encontro e me abraçou. Me implorava para que eu não fizesse o que estava pensando, mas naquele momento sabia que eu não seria bom para você. Então eu tive que te deixar. Naquele dia resolvi não tirar minha vida, pois ainda tinha esperança de te encontrar e como isso não aconteceu, no dia seguinte já tinha decidido o meu destino.

E quando eu estava prestes a terminar com tudo, você arrancou o maldito bisturi da minha mão e hoje estamos aqui.

Eu te confesso meu amor, que ainda tenho os meus momentos de angústia e existem dias que me sinto pressionado e tenho vontade de pôr fim em tudo. Mas aí lembro que tenho você, para segurar na minha mão e arrancar os objetos cortantes que insistem em perturbar minha mente.

Obrigada por estar aqui. Todos os dias eu luto por você, por nós. Eu ainda acho que não te mereço, mas quero acordar ao seu lado todas as manhãs. Perdoa esse meu jeito errado de ser? Eu te amo.

As lágrimas caíam em minha face, borrando toda maquiagem mas eu não ligava. Ele era tão especial, tão meu e agora eu teria a oportunidade de ficar todos os dias ao seu lado. Não seria fácil, eu sei, mas estava disposta a tudo para ajudá-lo sempre que fosse preciso.

Ele então me abraçou e nos beijamos. De fundo, podíamos ouvir os aplausos dos convidados…