Cotidiano

SOU MARCO’S

 

SOU O MARCO’S

 

Na minha concepção, claro que demorei perceber isso, anjos hospedam pessoas, não qualquer uma, mas as escolhidas a dedo por Deus. Esses hospedeiros, com certeza, passam por um critério de avaliação muito rígido, para que possam estar aptos para abrigarem e deixarem que essas entidades sacras existam e vivam nas almas delas; por sinal abençoadas. Eu pude confirmar tudo, tive uma prova disso. Uma vez, num momento de imensa tristeza na vida, tive uma surpresa que atingiu diretamente minha alma, amenizando minhas dores, horrores e desfavores. Foi um dos raros dias que eu passava pela minha cidade, já que sobrevivia de viagens de longos tempos. Nessa data pude com muitas pessoas, éramos familiares e amigos, por um só objetivo de lamento e desilusão. Foi justamente quando fui surpreendido por um abraço jovem, de um garoto que com um gesto puro, tão aconchegante, num momento tão certo, me deu a absoluta certeza que Deus estava presente naquele ambiente. Quando realmente olhei pra ele encontrei Marcos Vinícius, um jovem primo, que na sua sabedoria, catava propósito para ser feliz. Chegou desprovido de qualquer espera, era também um menino, tão comum quanto todos que ali estavam. Porém aquela atitude dele mudou radicalmente minha percepção, depois da saudação dele, percebi que existia algo especial, passei a enxergá-lo exatamente como ele é. Eu tinha encontrado uma pessoa realmente incomum, se comparando às percepções e convicções que temos de nós humanos, devido às nossas atitudes. Eu e ele não éramos acostumados aos encontros, há muito não já não nos víamos. Ele um jovem, quase com o mesmo tempo de vida do meu filho, pertencia à outra geração que não a minha, porém já lia e lê almas; habilidade que estou tentando aprender. Esse encontro que narro aqui, aconteceu há muito tempo, depois dele eu nunca deixei de carregar aquele abraço e ainda hoje consigo sentir o calor e a verdade daquele gesto, como se continuasse acontecendo e me arrebatando todos os dias.  Correu o tempo, passou a vida, o dono daquele ato, que para mim pareceu tão incomum, cresceu, transformou-se num jovem cheio de luz. Saiu pelo mundo, conheceu lugares, se embrenhou por corações, os que tiveram a oportunidade de receber a visita dele. Mais uma vez nos desencontramos por muito tempo, ele partiu para a vida convicto da sua felicidade, eu foquei cada vez mais na minha ambição pelo trabalho, não que eu quisesse ser rico, mas para atender as necessidade dos meus e do mundo capitalista que nos cobra uma existência sólida e muitas vezes egoísta. A vida seguiu e fui sabendo dele no seu passar do tempo, o que foi muito normal já que é uma gente minha. Nasceu de uma prima em primeiro grau, uma mulher linda que tem o dom de um sorriso que não se encontra pra comprar, emprestar, somente para aproveitar, um ato mágico que induz qualquer um à alegria. O pai, um amigo, hoje primo, que conheci em épocas de escola, entre a adolescência e a juventude. Estivemos juntos numa mesma turma colhendo aventuras, etapa na vida de todo jovem. Ele sempre foi o tipo de pessoa que guarda na memória histórias, fixa na lembrança fatos e atos abundantes para contar depois, são saudades deixadas em arquivos vivos. A irmã, Marília, que tem o nome copiado de uma adaptação fonética do Árabe Marilyam, que significa pureza, traja descontração e carrega um montão de coisas de cada um dos pais, parece que às vezes alça voos para visitar o céu e depois trazer sorrisos para o mundo. Quanto ao garoto do abraço, herdeiro de todas essas benesses, partira para viver o amor, satisfazer sua necessidade de existir na simplicidade de uma verdade, que talvez muitos não compreendam. Quis voar para alcançar o céu, que ele sabia onde estava. Por muitas vezes contei essa história do abraço, que foi tema de várias das minhas reuniões, inclusive com a minha equipe de trabalho. Até hoje, muito tempo depois, ainda carrego o calor dos braços que envolveram minha alma. Foi-se o tempo, um dia eu o reencontrei em uma foto, usava cabelos longos, dred, barba, um sorriso fácil de ser entendido, porque ele sempre foi de verdade e tinha o brilho da bondade nos olhos. Enquanto eu percorria a vida, ficava sabendo dele, eram poucas as notícias, mas o bastante para entender que estava construindo sua história. Assim foi passando o tempo, contando-se os fatos corriqueiros da vida que se faziam presentes e transformavam-se em passado. Então chegou um dia, aconteceu, um tio realizou uma festa de aniversário e juntou a família, um reencontro que mexeu com a sensibilidade de todos e dali a ideia da realização de outra, que juntasse toda a família. A ideia vingou, foi o ajuntamento de todos para comemorar o amor, confirmar o quanto valia a pena ser feliz gostando de gente da gente. Logicamente já não participaram todos, alguns já tinham partido. Passaram-se os dias, chegou à data da festa, depois de todo esforço aconteceu, um evento único, de muitas alegrias. Uma das boas surpresas foi saber antes que aquele Marcos, o do abraço estaria lá, participaria com a esposa. Eu aguardei ansiosamente por aquele reencontro, pois precisava saber o que teria trazido àquela alma, apesar de saber que seria luz. Então mais uma vez o destino me surpreendeu de forma sarcástica, infelizmente a felicidade se misturara a tristeza, porque a vida me surpreendera mais uma vez negativamente, carregando outro alguém dessa vida. Naquele dia nada foi como planejado, eu cheguei tarde ao evento, numa passagem aonde cheguei carregando meus rancores e decepções. Apesar de toda comoção, o evento se realizou, era inevitável, não teria como adiá-lo. Cheguei já ao tardar do dia, passei para um abraço nos tantos tios e primos que há muito eu não os via, e faziam saudade. Quando adentrei o portão, lá estava meu primo do abraço, carregava um sorriso solto e fácil, sem mácula, sem tragédia, grato a Deus. Senti a energia, que poderia ser captado dos seus olhos, da certeza de estar sendo sincero. Percebi que tinha gostado de me ver, recebi naquele instante seu carinho fraterno, mais uma vez foi um momento único. Ele me falou de Deus na sua saudação, demonstrou paz e harmonia na sua convicção. Condolente com minha dor me fez perceber que Deus é surpreendente, sempre indica alguém de boa índole para nos fazer uma visita em momentos de fragilidade e insegurança e assim o fez. Ele, o Todo Poderoso, passou essa missão para aquele ser verdadeiramente humano, cheio de anjos, que não gastou muita energia para me confortar. Presenteei-lhe com um berimbau, um que eu mesmo fizera com uma biriba catada na Bahia, a pedra tirada de um rio, uma vareta de bambu e um caxixi que eu mesmo teci. Tocamos juntos, foi um toque bem curtinho. Aí, na sua boa vontade, entre sorrisos me chamou pra um lado e contou-me um pedacinho da sua decisão de seguir a vida de paz e bênçãos, destituída de ambição e birras. Olhei para ele, que fora um bebê pouco tempo antes e admirei um sábio, que sabia muito mais que eu da vida, da bondade, capaz de me ensinar. Apresentou-me a esposa, sorriu depois de cada palavra dita. Pude ver o brilho nos olhos dele, incrivelmente humano. A sua passividade me levou a crer que realmente existem os Deuses, mas que Eles pecam, têm suas vontades, necessidades, obstinações, porém curam, salvam, transmitem paz e não têm vaidade. São dotados da vontade de fazer felicidade, se abstém da ambição, destituem-se da maldade. E assim esse meu primo, jovem com tanta verdade e fé, rastafári, acredito que sim, homem, acredito que seja capaz de ensinar a todos. Eu tenho uma certeza diante de tanta pureza de alma, sei que Deus seleciona e cabe então aos anjos escolherem seus hospedeiros naturais, que são mágicos. Como esse garoto, que sem nenhum acaso, tem um pouco do sangue que compõe o meu, vou segui-lo num reggae bom, com balanço harmonioso, em busca do paraíso, que talvez eu não consiga, mas que ele possa encontrar.

Texto: José Airton de Oliveira

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