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RECONTAR

Posted on 22 de julho de 2019

Autor: José Airton de Oliveira

Quando pela primeira vez viu aquele olhar, sentiu que não teria sido apenas uma manifestação normal de quem buscava uma direção, ou um reconhecimento, mas uma identificação, tocando profundamente aquele ser. Foi como se uma sonda magnética penetrasse seu globo ocular e alojasse no coração, colocando lá uma semente que iria brotar e mudar totalmente a vida dele. Apesar da dramaticidade, a sensação não foi de dor, mas um sentimento gostoso, porém alucinante, mudando toda a sua compostura. Era como se tivesse lhe hipnotizado, mesmo não tendo nada de exótico, mas pela maneira de expressar. Aquela pessoa o fitava, sem ao menos tentar disfarçar. Era notório que ela já tinha definido o que buscava, ela descobriu um sentido , uma particularidade que simplesmente lhe chamara a atenção, mas de forma tão intensa que não poderia mais deixar. Via somente aquilo que queria e tinha planejado ver. Sentiu um arrepio, nunca tinha sido olhado daquele jeito, foi uma drástica mudança na forma de captar olhares. Ele deixou de enxergar à sua volta, a visão deixou de ser difusa, particularizou, redirecionou o foco, objetivando apenas aqueles olhos que os queriam em fim. Nunca tinha acontecido, atônito, totalmente encantado, a única sensação era estar a mercê, totalmente entregue, àquela linda alma que o via. Não se definia cor, significado, a única sensação era que não teria como fugir daqueles efeitos, eram avassaladores, sentiu profundamente o flerte. Assim se definiu apaixonado, já não teria mais o que fazer, não tinha interesse por buscar outras motivações, ensandecido já não via mais ninguém, perdeu a noção do tempo, se alimentava apenas da ilusão de um eternamente feliz. O que realmente lhe bastava era apenas ter nos braços a dona olhos que o viram de novo. Foi assim que aconteceu, sentimentos bilaterais, descobriram o amor um pelo outro e viverem um conto de fadas, foram felizes, até que o leitor fechou o livro e apagou a luz da saudade, se perdendo na noite da obscuridade do fim da vida, sem ter seu feliz pra sempre.

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